24/02/2015

Como o estresse pode levar ao envelhecimento precoce

Por Dra. Maria Helena Nicola*

Numerosos estudos têm demonstrado as ligações entre estresse crônico e maus indicadores de saúde. Nestes estudos foi possível identificar os danos causados pelo estresse, no nível molecular, pois na medida em que nos estressamos, encurtamos o tamanho dos telômeros, que são sequências repetitivas de DNA presentes na extremidade dos nossos cromossomos cuja função é protegê-los contra uma série de danos. Quando estes telômeros são encurtados devido ao estresse, por exemplo, ocorre a aceleração do envelhecimento, a morte celular e um início mais precoce de doenças relacionadas com a idade.

Este tema apresenta tamanha relevância que já foi abordado até mesmo no filme “O amor não tira férias” (The Holiday) de 2006. No longa, a atriz Cameron Diaz, que faz o papel de uma mulher cuja vida está fora de controle, exclama: “Estresse severo…faz com que o DNA em nossas células encolha até que elas já não podem replicar”. O DNA a que se refere o personagem de Cameron Diaz é o segmento que compõe os telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomas. No filme, ela estava se referindo a uma publicação de 2004 na qual pesquisadores investigaram a hipótese de que o estresse tivesse impacto na saúde por modular a taxa de envelhecimento celular. Neste trabalho (Epel, E. e col. PNAS , 2004  vol. 101 nº. 49) eles forneceram evidências de que mulheres com níveis mais altos de estresse têm telômeros menores, em média, o equivalente a, pelo menos, uma década adicional de envelhecimento em comparação com mulheres de baixo estresse.

As associações entre estresse e envelhecimento são tão comuns e consistentes que, mesmo sem um entendimento detalhado das vias bioquímicas envolvidas, a mensagem é clara: o estresse grave, causado por ameaças prolongadas como a guerra, dificuldades financeiras, abuso e negligência emocional, particularmente em crianças, resultará em custo econômico exponencialmente maior por aumentar a probabilidade do aparecimento de doenças crônicas e levar a uma menor expectativa de vida.

Segundo Elizabeth Blackburn e Elissa Epel em artigo publicado na revista Nature (Too toxic to ignore. Nature, vol. 490.2012), a análise dos telômeros permitiria antecipar doenças do envelhecimento. As autoras citam estudos que indicam que o estresse começa a desgastar os telômeros na infância, e talvez mesmo antes de as crianças nascerem. Quanto mais violência as crianças tenham experimentado, mais curtos são os seus telômeros. Mesmo adultos jovens saudáveis cujas mães tenham experimentado grave estresse durante a gravidez (por exemplo, perda de um membro próximo da família) tinham telômeros menores do que as pessoas cujas mães tiveram uma gravidez relativamente livre de estresse. Os efeitos do estresse no início vida se refletem na vida adulta.

Em mais de 4.000 mulheres de meia-idade estudadas, quanto maior adversidade cada uma tinha experimentado como criança (como abuso físico, desemprego ou divórcio dos pais, ou uso de drogas), menor eram seus telômeros (veja gráfico abaixo).

Segundo as autoras, sugerir a importância de investimento na qualidade de vida das pessoas não é novidade. O que é novo é a riqueza de elementos que demonstram que os telômeros podem sinalizar o aparecimento de doenças, quantificando o tempo e a qualidade de vida.

* Dra. Maria Helena Nicola é coordenadora de P&D da Cryopraxis.