24/03/2015

Células-tronco podem ajudar no tratamento de doenças cardíacas

Homens e mulheres que sofrem com doenças cardíacas podem conseguir uma melhora na qualidade de vida com a ajuda da terapia celular. Os estudos clínicos utilizando células-tronco da medula óssea em cardiologia avançam no Brasil e no mundo.

Dados científicos revelaram que, em 2002, a doença coronariana foi a primeira causa de óbito no mundo. Os mesmos dados preveem que, em 2030, esta doença ainda continue no topo das causas de mortes. A enfermidade é caracterizada pela obstrução dos vasos sanguíneos que irrigam o coração. Esta condição, dependendo da extensão da obstrução do fluxo sanguíneo, pode levar à angina do peito, infarto agudo do miocárdio e até mesmo, morte súbita.

O Professor Adjunto de Cirurgia Cardiovascular da Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, Nelson Hossne, parceiro da Cryopraxis®/CellPraxis  Bioengenharia num estudo com células-tronco na produção de um produto biológico, explica na entrevista abaixo o uso das células-tronco autólogas em algumas doenças cardíacas.

– A área de doenças cardiovasculares está entre as mais estudadas quanto ao potencial terapêutico das células-tronco de medula óssea?

Sim. Muitos estudos vêm demonstrando a eficácia  e a segurança da terapia com células-tronco autólogas (do próprio paciente) da medula óssea em doenças cardiovasculares. Estudos preliminares mostram que a terapia celular é benéfica.

– Por que as células-tronco usadas nos tratamentos/estudos das doenças do coração são oriundas da medula óssea do próprio paciente?

O material retirado da medula óssea elimina o risco de rejeição e é mais facilmente obtido. No entanto, vários estudos demonstraram que o uso de células heterólogas (material não pertencente ao paciente), por exemplo, células de cordão umbilical, também não apresentam risco de rejeição.

– Há cerca de oito anos, o senhor lidera o estudo de um produto, chamado ReACT®, que usa terapia celular para tratar pacientes com angina refratária e que não tinham mais opções cirúrgicas nem respondiam ao tratamento clínico. Explique como é o tratamento.

Os médicos retiram células-tronco adultas da medula óssea do próprio paciente. A partir dessas células, é preparada uma formulação específica que será posteriormente injetada no músculo cardíaco. O ReACT® formou novos vasos sanguíneos e, assim, aumentou o fluxo de sangue no coração, eliminando os sintomas na maioria dos pacientes, como dor intensa, cansaço extremo e limitações físicas que, até então, não tinham opção terapêutica eficaz. O tratamento é realizado em apenas um dia.

– Qual foi o resultado da etapa mais recente desse estudo?

O ReACT® foi clinicamente testado em 13 pacientes com angina refratária, com idades entre 53 e 79 anos. Os resultados começaram a aparecer cerca de quatro meses após o início do tratamento, mas essa é uma questão variável entre os pacientes. Após esse período cerca de 90% dos participantes apresentaram melhoras significativas dos sintomas clínicos (dor) e funcionais, observado pela diminuição da dor e por exames de cintilografia, além de melhora na qualidade de vida e redução dos custos médicos.

O estudo clínico de fase I/II comprovou que o tratamento com células-tronco da medula óssea é capaz de melhorar sintomas como cansaço extremo, limitações físicas e intensa dor no peito, problemas para os quais até hoje, não havia opções terapêuticas eficazes. A melhora dos voluntários continuou progredindo após um ano do tratamento.

Os resultados obtidos da pesquisa com o ReACT® foram apresentados em simpósios internacionais realizados no Brasil e na Europa. Este é um procedimento único e exclusivo feito em parceira entre Cryopraxis®/CellPraxis®  Bioengenharia,  Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade do Sul da Flórida e o Instituto do Coração (Incor), que pode ser a esperança para quem sofre com angina refratária. No Brasil, a doença prejudica a qualidade de vida de cerca de 50 mil pessoas por ano.

– Qual é o próximo passo do estudo com o ReACT®?

A previsão é que, ainda em 2015, a fase III dos ensaios clínicos seja iniciada. Nesta nova etapa cerca de 50 pacientes da Escola Paulista de Medicina (SP), Instituto Nacional de Cardiologia (RJ) e da PUC do Paraná irão participar.

Diferente da fase II, onde as células-tronco foram injetadas através de uma cirurgia, nesta nova etapa vamos injetar as células através de um cateter, que é menos invasivo. A previsão é que a fase III seja concluída entre três e cinco anos. A expectativa é que, após a apresentação dos resultados ao Conselho Federal de Medicina, o ReACT® seja considerado um tratamento padrão para os pacientes, que hoje não possuem opção efetiva.