29/11/2017

A História do Uso do Sangue do Cordão Umbilical

Com esse título, em fevereiro de 2017 a Revista STEM CELLS TRANSLATIONAL MEDICINE** publicou o perfil da Dra. Joanne Kurtzberg, oncologista pediátrica, cuja história profissional se confunde com a história do uso do sangue do cordão umbilical. A Dra. Joanne Kurtzberg é presidente da Cord Blood Association (CBA). Especialista em hematologia e oncologia pediátrica, transplante de medula óssea e de sangue de cordão umbilical pediátricos, e em novas aplicações do sangue de cordão umbilical em medicina regenerativa. Em 2010, criou a Clínica Robertson **** (Duke Clinical and Translational Science Institute), com foco no desenvolvimento de terapias utilizando células-tronco do sangue de cordão umbilical.

O início
O perfil, escrito pela própria Dra. Kurztberg, relata o início de seu interesse por células-tronco do sangue de cordão umbilical durante seus estudos em Hematologia/Oncologia Pediátrica na Universidade de Duke. O Dr. Hal Broxmeyer, que se tornaria um pioneiro no uso do sangue do cordão umbilical como fonte de células para a reconstituição da medula óssea, foi seu orientador no estudo das células-tronco hematopoéticas isoladas da medula óssea, do fígado fetal e do sangue do cordão umbilical.

Um jovem chamado Matthew
Segundo ela, seu paciente Matthew Farrow tinha anemia de Fanconi (FA) com evolução para insuficiência da medula óssea. O prognóstico para a doença era reservado, a menos que fosse tratado com um transplante de medula óssea de um doador compatível.

Matthew não tinha um doador na família, mas quando sua mãe ficou grávida de outro bebê, foi realizado o teste para ver se ele era compatível com o Matthew. E a resposta foi positiva, a irmã era saudável e tinha compatibilidade total com ele.

O que aconteceu depois foi uma convergência notável de percepção, dedicação e inovação cooperativa nessa área terapêutica emergente, e Matthew foi o primeiro paciente a ser tratado com células-tronco do sangue de cordão umbilical.

A percepção das aplicações terapêuticas para o sangue de cordão umbilical
Há 29 anos, no Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSKCC), uma equipe liderada por Ted Boyse, Judy Bard e Hal Broxmeyer estava explorando os possíveis usos do sangue do cordão umbilical em transplantes de medula óssea e terapia celular.

Embora o sangue do cordão umbilical até então fosse, de rotina, descartado, como lixo médico, os três montaram uma empresa, a Biocyte, para desenvolver as aplicações terapêuticas para o sangue do cordão umbilical, e obtiveram uma patente para o congelamento e a formação de um banco de sangue de cordão umbilical para uso futuro.

A pesquisa do Dr. Broxmeyer confirmou que o sangue do cordão umbilical era rico em células progenitoras hematopoéticas altamente proliferativas – mais ainda do que a medula óssea – e levantou a hipótese de que o sangue do cordão umbilical poderia servir como doador substituto para a medula óssea.

O procedimento pioneiro
Quando a irmã de Matthew nasceu, foi coletado o sangue de seu cordão umbilical e foi preciso esperar que ela completasse 6 meses de idade para que pudesse servir de doadora de medula óssea caso as células de sangue de cordão umbilical não fossem eficientes na pega do transplante.

Matthew foi preparado para o transplante com doses atenuadas de quimioterapia e irradiação e no dia do transplante o Dr. Broxmeyer levou pessoalmente a amostra das células-tronco. Não houve complicações significativas, e 19 dias depois, as células de sangue de cordão umbilical de sua irmã estavam proliferando na medula óssea de Matthew. Ele ficou curado da anemia de Fanconie e agora, com seus trinta e poucos anos, tem uma vida saudável e normal.

A expansão da aplicação terapêutica de células-tronco de sangue de cordão umbilical
Após este sucesso inicial, outros pesquisadores estenderam o trabalho tratando outros irmãos com o HLA compatíveis, usando o sangue de cordão umbilical, geralmente para o tratamento de leucemias agudas. As células-tronco do sangue de cordão umbilical funcionaram e apresentaram vantagens em relação ao transplante de medula óssea.

Em 1993, a equipe da Dra. Kurtzberg em Duke, que abriu o programa de transplante pediátrico em 1990, realizou o primeiro transplante de doador de sangue do cordão umbilical não aparentado, em um menino de 4 anos com leucemia linfocitica aguda. Nos 2 anos seguintes, foram realizados 25 transplantes, e o sucesso desses primeiros transplantes estabeleceu o sangue do cordão umbilical como alternativa viável para pacientes que não tinham doador aparentado.

Nos anos que se seguiram, o sangue de cordão umbilical foi utilizado como fonte alternativa de células progenitoras hematopoéticas em todas as indicações que anteriormente utilizavam doadores de medula óssea, incluindo as neoplasias malignas hematológicas, síndromes de imunodeficiência congênita, insuficiência da medula óssea, hemoglobinopatias e doenças metabólicas hereditárias.

Os anos recentes
As pesquisas clínicas recentes demonstram a segurança das infusões autólogas de sangue do cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral e outras lesões cerebrais adquiridas, sem quimioterapia preparatória ou imunoterapia.

Mais recentemente, o sangue do cordão umbilical também está sendo testado como terapia celular, no reparo celular em pacientes com encefalopatia hipóxicoisquêmica, acidente vascular cerebral e Autismo. Embora os resultados sejam preliminares, eles são uma esperança para as terapias celulares como novos tratamentos para doenças que causam deficiências ao longo da vida e atualmente não possuem opções de tratamento.

Para saber mais:
** Stem Cells Translational medicine 2017;6:1309–1311
***http://parentsguidecordblood.org/en/news/prof-joanne-kurtzberg-interview-israel
****https://www.ctsi.duke.edu/what-we-do